O rio São Francisco é um pilar fundamental para a integração e o desenvolvimento do Brasil: abrange 505 municípios e abastece 11,4 milhões de pessoas. Essa vasta hidrovia, que se estende do Sudeste ao Nordeste, possui um potencial imenso para o transporte de cargas em escala, de forma mais eficiente, econômica e sustentável.
Após mais de uma década de interrupção devido ao assoreamento, o Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) anunciou a nova hidrovia do São Francisco. Com 1.371 quilômetros navegáveis, a iniciativa permitirá a retomada da navegação comercial entre Pirapora (MG) e Petrolina (PE), um marco para a logística nacional.
O projeto da Nova Hidrovia do São Francisco é crucial para reequilibrar a matriz logística brasileira, hoje fortemente dependente do modal rodoviário. “Grandes grupos já manifestaram interesse em fazer essa operação hidroviária. Vamos trabalhar muito nos próximos meses para garantir a execução do projeto, que é fundamental para o fortalecimento da logística brasileira e para o desenvolvimento do país, sobretudo da Região Nordeste”, destacou o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho.
A navegação hidroviária oferece vantagens ambientais e econômicas significativas. Segundo Otto Luiz Burlier, diretor do Departamento de Navegação e Fomento do MPor, a hidrovia do São Francisco é a forma mais sustentável de transportar cargas. “A Nova Hidrovia do São Francisco tem potencial para gerar mais movimentação de cargas entre os estados do Nordeste de forma muito mais barata e menos poluente do que por meio de uma rodovia”, afirma.
Um comboio hidroviário pode substituir até 1,2 mil caminhões nas estradas, resultando em uma drástica redução na emissão de CO₂ e no desgaste das rodovias. Além disso, o consumo de energia das embarcações é consideravelmente menor, tornando essa solução uma das mais econômicas e ecológicas do mercado. O Brasil possui cerca de 60 mil quilômetros navegáveis, mas apenas 20 mil são aproveitados comercialmente, o que ressalta o vasto potencial a ser explorado.
Descentralização e etapas do projeto
Para viabilizar o projeto, o MPor passará a gestão da hidrovia do DNIT para a Companhia das Docas do Estado da Bahia (Codeba), uma autoridade portuária vinculada ao ministério. Essa descentralização, prevista para ocorrer ainda em junho, permitirá que a Codeba, em parceria com a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), inicie os estudos técnicos e de concessão para a retomada da navegação. A magnitude do projeto exigiu sua divisão em três etapas, todas planejadas para integrar os modais rodoviário e ferroviário:
Primeira Etapa (577 km, sendo 525 navegáveis): Ligas as águas de Juazeiro (BA) e Petrolina (BA) a Sobradinho (BA), terminando em Ibotirama (BA). As cargas serão escoadas por rodovias até o Porto de Aratu-Candeias, na Baía de Todos os Santos (BA). A previsão é movimentar cinco milhões de toneladas de cargas já no primeiro ano, um volume comparável ao da cabotagem do Porto de Santos em 2024.
Segunda Etapa (156 km): Abrange o trecho entre Ibotirama e Bom Jesus da Lapa e Cariacá, na Bahia.
Terceira Etapa (648 km): Conectará Bom Jesus da Lapa e Cariacá a Pirapora (MG), completando a integração Sudeste-Nordeste. Haverá conexão com a Ferrovia Centro-Atlântica (FCA) e a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) até os Portos de Ilhéus (BA), Porto Sul e Aratu-Candeias.
Produtos e fluxos de carga
De Petrolina (PE) a Pirapora (MG) e, posteriormente, ao Sudeste e à região do MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), serão transportados gesso agrícola, gesso, gipsita, drywall e calcário.
Açúcar e óleo sairão de Juazeiro (BA) para Pirapora, abastecendo o Sudeste e o MATOPIBA. O sal do Rio Grande do Norte seguirá para Remanso (BA), onde embarcará no São Francisco rumo a Pirapora e ao Sudeste. O café fará o caminho inverso, de Pirapora para Juazeiro e Petrolina, atendendo ao Nordeste.
Milho, soja, algodão, adubo e insumos agrícolas de Barreiras e Luís Eduardo Magalhães (BA) seguirão por via terrestre até Ibotirama, e de lá, pela hidrovia, até Juazeiro, podendo ser escoados para o Porto de Aratu por rodovia ou ferrovia.
Novas instalações portuárias
O projeto também prevê a construção de 17 Instalações Portuárias Públicas de Pequeno Porte (IP4), essenciais para o transporte de cargas e passageiros na Bahia, Pernambuco e Alagoas. Dessas, seis estão em fase de projeto e onze em planejamento. Os editais para os IP4 de Petrolina e Juazeiro estão previstos para setembro, com início das obras em janeiro de 2026.

Arte produzida pelo MPOR
Fonte: com informações do Mpor.
Fotografia: Cleferson Comarela / Divulgação Mpor.